quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Metal Up Your Ass (parte 2)



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Em 1981, logo após o retorno da Europa e da turnê inglesa com o Diamond Head, Lars acompanhou todos os shows de Metal e Rock que podia na Costa Oeste dos EUA e durante uma apresentação do Michael Schenker Group no Country Club de Costa Mesa, ele vestia uma camiseta do Saxon quando um headbanger chegou e perguntou curioso se ele realmente gostava da NWOBHM ou era apenas um modista de plantão. Lars deu uma aula de conhecimento sobre a cena inglesa e os dois conversaram bastante naquela noite sobre tudo o que acontecia. O banger em questão se chama Brian Slagel e é uma peça importante na história do Metallica para os próximos anos.



Slagel, na época, trabalhava em um fanzine chamado The New Heavy Metal Review e começou a planejar o lançamento de sua própria gravadora (que viraria a famosa Metal Blade) com uma compilação de várias bandas locais, um disco chamado Metal Massacre que pudesse abrir as portas para uma cena começando a surgir na Califórnia no começo dos anos 80. Lars viu nesse disco a grande chance de sua vida e encheu o saco de Brian para que ele reservasse uma faixa da coletânea para sua banda que nem existia ainda. Slagel meio na brincadeira mas contente com a empolgação do amigo, concordou, afinal parecia impossível aquele jovem dinamarquês trazer alguma coisa em tão pouco tempo (o lançamento do disco seria em questão de meses), começando do zero.

Sem perder um minuto, Lars se lembrou daquele jovem garoto cheio de espinhas e sonhos que conhecera alguns meses antes, o tal James Hetfield, e entrou em contato em 28 de Outubro de 1981 com uma oferta irrecusável, afinal, eles teriam finalmente um espaço para a divulgação do trabalho, que para falar a verdade sequer tinha começado. James aceitou montar a banda e gravar alguma coisa para o Metal Massacre mas torcia muito para que durante o último ano, Lars – o tenista, tivesse treinado bastante seus dons na bateria.

Sem dinheiro para grandes investimentos, os dois decidiram gravar uma música simples chamada Hit The Lights (baseada em um riff composto por James e claramente influenciada pela letra de Shoot Out The Lights do Diamond Head) em um gravador barato no porão da casa dos Ulrich. Lars ficou na bateria, James fez os vocais, tocou baixo e a guitarra base, enquanto seu amigo, Lloyd Grant – um guitarrista negro com influências mais voltadas ao Blues - fez os solos. A idéia inicial por sugestão de Brian, era apenas James tocar as duas guitarras fazendo um overdub (ou seja colocando o som de uma guitarra por cima da outra e enriquecendo a base durante os solos) mas os primeiros experimentos não deram muito certo e James chamou Lloyd por este ser um guitarrista mais voltado às improvisações.

Brian aprovou a gravação e até se surpreendeu com o potencial dos músicos mas uma grande dúvida pairou no ar quando ele pediu o nome da banda para colocar no disco. Uma coisa tão óbvia e ao mesmo tempo tão esquecida por James e Lars: afinal, qual era o nome da banda?

Antes de chegar ao nome definitivo, os integrantes pensaram em Thunderfuck (cortesia de um amigo de Lars chamado Tony Taylor), Helldriver (baseado na música do Accept), Leather Charm (ressuscitando o nome da antiga banda de Hetfield), Red Veg, Blitz, Steeler e Grinder (os dois últimos, vindos do Judas Priest) mas e o “Metallica”?

O nome “Metallica” como algo relacionado ao Heavy Metal, apareceu pela primeira vez em um livro chamado Encyclopedia Metallica, publicado pela Omni Press em 1981 e escrito pelos jornalistas ingleses Brian Harrigan e Malcolm Dome. O livro era um resumo da primeira década do Metal (1970 até 1980) e trazia uma lista das bandas com seus respectivos discos lançados até o momento.

Mas até o nome chegar à banda de Los Angeles, o caminho foi um pouco mais extenso e através de dois amigos bangers de Lars: Ron Quintana e Ian Kallen. Ambos lançariam um novo fanzine sobre Heavy Metal nas semanas seguintes em Los Angeles e fizeram uma lista de nomes para escolher em uma votação com os colaboradores do projeto. O nome vencedor desta eleição foi “Metallica” (provavelmente tirado do livro), mas Lars adorou a expressão e a força e, sem perder tempo, sugeriu que o nome Metal Mania soaria bem melhor para um fanzine. Quintana e Kallen, sem perceber as segundas intenções na história, concordaram e Lars afanou o nome vencedor para sua banda.

Com o nome e a música gravada, Slegel finalmente soltou o Metal Massacre, primeiramente com apenas 4500 cópias impressas e também contando com as bandas Steeler, Bitch, Malice, Ratt, Avatar, Cirith Ungol, Demon Flight e Pandemonium.

A primeira edição do Metal Massacre foi um sucesso e caiu no gosto dos headbangers norte-americanos sedentos por uma cena forte já que até então, os EUA apenas se rendiam ao talento do Heavy Metal europeu, especialmente inglês e alemão. O único problema do disco foi certa falta de cuidado na produção dos encartes pois registraram errado o nome da banda e dos integrantes. Metallica virou Mettallica e Lloyd Grant virou Llyod Grant. Infelizmente, Slagel não teve dinheiro suficiente para corrigir o erro na gráfica e o álbum chegou ao mercado assim mesmo.

Com a boa repercussão do Metal Massacre, o Metallica precisava estabilizar uma formação e fazer o máximo de shows para divulgar o seu material. Lars Ulrich continuou na bateria, James Hetfield, apesar de alguns dilemas particulares em não conseguir cantar e tocar ao mesmo tempo, seguiu como vocalista e guitarrista base; Para o posto de baixista, James chamou seu colega de quarto e velho amigo, Ron McGovney e para a guitarra solo, bom, nem James e nem Lars estavam satisfeitos com o trabalho de Lloyd Grant, mais voltado ao Blues de raiz e ele foi demitido em Janeiro de 1982. A idéia inicial era ter James apenas como vocalista e Lloyd faria dupla com outro guitarrista nos shows (estilo Iron Maiden), mas Grant saiu, James voltou às guitarras e, para complementar, a banda colocou um anúncio novamente no Recycler em busca de outro guitarrista. Vários candidatos se apresentaram mas um em questão chamou a atenção pela sua técnica e vontade, um cara chamado David Scott Mustaine. Aliás, Hetfield e Mustaine já se conheciam dos bares em LA.

Nascido em 13 de Setembro de 1961, Dave era uma figura conhecida da cena californiana pela sua habilidade nas 6 cordas mas também era bem lembrado pelas suas bebedeiras e exageros, isso sem contar do bico como traficante de drogas. No começo de 1982, Mustaine era guitarrista da banda Panic mas saiu assim que soube do novo emprego no Metallica.



O novo quarteto gravou uma demo (raríssima de encontrar hoje em dia) chamada Power Metal com uma nova versão de Hit the Lights e os covers de Let it Loose do Savage e Killing Time doSweet Savage. Essa nova Hit The Lights é a que aparece atualmente nas reimpressões em CD do primeiro Metal Massacre. A versão original, um pouco mais lenta e menos trabalhada, você só encontra nas cópias originais impressas em vinil nos anos 80 mesmo.

O primeiro show oficial aconteceu em 14 de Março de 1982 no pequeno Radio City, em Anaheim para mais ou menos 75 pessoas. O set desta apresentação foi basicamente composto de covers do Diamond Head e outras bandas da NWOBHM mais a própria Hit the Lights. Os primeiros shows do Metallica destacavam o nervosismo dos integrantes da banda e a falta de experiência nos palcos com Mustaine estourando as cordas da guitarra com certa freqüência, Lars errando o ritmo na bateria e James esquecendo algumas de suas próprias letras.

O Metallica compensava o nervosismo e a ansiedade com muitos ensaios e boas composições novas. Mais uma vez, Brian Slagel confiou no potencial e deu uma força à banda: ainda em 1982, o Saxon, já uma banda conhecida, faria sua turnê de divulgação do álbum Denim and Leather nos EUA e tocariam 4 shows em um bar chamado Whiskey A-Go-Go, dois sets por noite. Slagel, já mais conhecido e respeitado na cena Metal da Costa Oeste pelo seu Metal Massacre (que depois virou uma série de discos), conseguiu para oMetallica a abertura dos dois shows no dia 27 de Março.

ImagemNa verdade essa história também tem uma segunda versão que nos conta sobre a amizade entre Ron McGovney e alguns integrantes do, então desconhecido, Mötley Crüe, mais precisamente Tommy Lee e Vince Neil. Por incrível que pareça, na época o Mötley ainda era uma banda de Metal e Ron, um dia conversando com os dois, comentou que o Saxon viria para Los Angeles e que eles estavam interessados em abrir esse shows. Lee e Neil comentaram que também gostariam de abrir mas que a banda estava crescendo demais, mas de qualquer forma eles conheciam a garota do Whiskey A-Go-Go responsável pelo agendamento dos shows, e dariam uma forcinha apresentando Ron. Com a popularidade do Crüe em alta, Ron agradeceu a ajuda e conseguiu mostrar a demo Power Metal. No dia seguinte, ligaram para o baixista e elogiaram muito o som do Metallica: eles conseguiram a disputada vaga para a abertura dos shows.

Era a primeira grande oportunidade ao vivo e foi a primeira vez em que a banda tocou algumas músicas que logo se transformariam em verdadeiros clássicos do Heavy Metal como Metal Militia e Jump in the Fire.



Brian Russ, hoje um senhor de 42 anos e criador do siteBNR Metal Pages (http://www.bnrmetal.com), tem algumas memórias desta época da banda: “Em 1982, eu vivia no norte da Califórnia e o Saxon estava em turnê e tocaria em Los Angeles (mais ou menos a 6 horas de carro). Meu amigo estava louco para ir e queria que eu fosse com ele. Eu disse que não (provavelmente porque tinha de trabalhar, não lembro agora), e ele foi com seu irmão assistir ao show. Quando perguntei como tinha sido, ele disse que o Saxon foi legal mas achava que eu iria me interessar pela banda de abertura, que era oMetallica. Ele falou sobre o excelente guitarrista (Dave Mustaine – claro que nós não sabíamos os nomes até então), o “não tão bom” vocalista (James Hetfield - cuja voz ainda não era desenvolvida), e deve ter dito alguma coisa sobre o baixista (Ron McGovney). Se esse não foi o primeiro show do Metallica, foi um dos primeiros, talvez a primeira vez que eles abriram para uma banda grande como o Saxon. Eu ainda me arrependo de não ter ido àquele show.”

O setlist da primeira apresentação contou com Hit the Lights, Jump in the Fire, Helpless, Let it Loose, The Prince e Metal Militia. A segunda apresentação da noite contou com uma música a mais, o cover Sucking My Love. O detalhe destes dois shows, o primeiro com os 400 ingressos esgotados e o segundo com um público de 250 pessoas, é que Ulrich e Cia. não conheceram os integrantes do Saxon, trancados no camarim até a hora de subir ao palco, talvez algum estrelismo por parte dos ingleses?

A banda ainda não estava afiada, como lembra Slagel até hoje, mas em alguns meses uma fita pirata com a gravação destes shows se tornou a verdadeira coqueluche no circuito de troca de fitas cassete.

O começo era promissor e a banda aproveitou para tocar no maior número possível de bares em Los Angeles. Para consolidar o momento, Lars guardou uma grana e fez alguns milhares de cartões de visita já com o famoso logo desenhado por Hetfield (o METALLICA com o “M” e o último “A” pontudos) e os dizeres “Power Metal” (idéia de Ron) embaixo junto com o número de telefone para contatos da banda.


O set dessas primeiras apresentações contava com as mesmas músicas do show do Saxon mais várias covers do Diamond Head e a música Blitzkrieg da banda inglesa de mesmo nome. Sobre esta última, como ninguém conhecia os ingleses e todos adoravam a composição, Lars dizia que era do Metallica mesmo.
O fanatismo de Lars Ulrich pelas bandas da NWOBHM gerou situações curiosas nesses primeiros shows já que muitos covers apresentados no palco ainda não tinham uma versão oficial de estúdio pelos seus grupos originais. A confusão acontecia porque Lars puxava muito material de fitas demo, singles e EPs, às vezes até mesmo caseiros das bandas ou disponíveis apenas no circuito de troca de fitas, sem uma gravação oficial. A música Let it Loose do Savage, por exemplo, só apareceu pela primeira vez em disco em 1983 quando a banda lançou o Loose ´n´ Lethal mas o Metallica já tocava o cover em shows desde meados de 1982. A já citada Blitzkrieg só apareceu oficialmente pela banda de mesmo nome em 1985 mas o Metallicatambém a tocava desde 1982 e pior, os californianos lançaram uma gravação oficial da música primeiro, em 1984 juntamente com o single de Creeping Death, o famoso Garage Days Revisited (não confundir com o álbum completo de covers lançado em 1987 chamado Garage Days Re-revisited).

Esse fato gera algumas contradições com o caso Napster envolvendo a banda quase duas décadas depois. Será que as fitas que Lars trocava com seus amigos na época também não podem ser consideradas pirataria?

O pior caso, com certeza, aconteceu com Killing Time. Essa era outra cover que o Metallica tocava nos shows desde 1982 mas a versão oficial pelo Sweet Savage, só deu as caras em...1996 (não é brincadeira!).

O sucesso nos bares do underground chamou a atenção da imprensa local. O Los Angeles Times escreveu ainda em 1982 que o Metallica era a melhor coisa surgida no Rock em um longo período.

Apesar desta ponta do iceberg, a banda ainda não agradava a todos com seu som inovador, rápido e cru. Em um show no antigo colégio americano de Lars, o Backbay High School, o Metallica conseguiu esvaziar o salão onde tocavam em pouco mais de meia hora.


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Em compensação, uma outra noite a banda foi convidada para abrir o show dos suíços doKrokus, de passagem por Los Angeles. Na última hora, o Krokus desistiu da apresentação sabe-se lá por quê e oMetallica teve de lidar com uma platéia enfurecida pela falta de respeito dos europeus. Mas James, Lars, Dave e Ron não se abateram e fizeram um show mágico em um setlist com várias músicas, então inéditas, e alguns covers. A platéia não acreditava no que via em cima do palco e a recepção foi tão boa que esta noite ficou conhecida como “A Noite do Metallica”, a primeira vez em que a banda realmente superou todas as expectativas e conquistou seus primeiros fãs.



Referências Bibliográficas:

BNR – Metal Pages. http://www.bnrmetal.com
Encyclopedia METALLICA. http://www.encycmet.com
Metallica Official. http://www.metallica.com
PUTTERFORD, MARK. METALLICA In Their Own Words. UK: Omnibus Press, 2000
RUSSELL, XAVIER. The Definitive METALLICA. UK: Omnibus Press, 1992
McIVER, JOEL. Justice for All: The Truth About METALLICA. USA: Omnibus Press, 2004
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Slash e Guns N' Roses (meio).


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Para Slash, Axl era fundamental no começo do Guns N’ Roses. “Axl sempre era capaz de pegar uma melodia simples de Izzy e transformá-la em algo fantástico”, destaca. Ao longo do livro o guitarrista se equilibra entre críticas e elogios ao vocalista, o que demonstra resquícios de uma amizade adormecida – com certeza o elo que seria necessário para uma sonhada volta da formação clássica do Guns N’ Roses.




Depois Slash assumiria ter adotado uma postura “arrogante” com o músico Paul Stanley (do Kiss), durante um curto tempo em que o consagrado músico de cara pintada esteve metido com os bastidores da banda. Isso demonstra uma autocrítica do guitarrista, importante ao se contar histórias tão controversas e discutidas quanto as vividas no GN’R.

“O estilo de vida ligado às drogas era uma realidade dominante para nós e desempenhava papel principal em tudo o que fazíamos àquela altura”, detalha Slash, sobre o momento compreendido entre o fechamento de contrato com a Geffen e a gravação do álbum "Appetite For Destruction", que deu o ‘start’ para a primeira turnê da banda.
O guitarrista atribui os efeitos dos entorpecentes como ‘inspiradores’ para alguns dos membros do grupo. “Quando acontecia de conseguirmos a droga, Izzy e eu compúnhamos um bocado porque, naquela época, a heroína era um grande catalisador para nós”, relata. “Tão logo ficávamos altos, Izzy e eu começávamos a tocar de improviso e a trabalharem nossas ideias, criando riffs para lá e para cá”, acrescenta Slash.

Dessa forma, depois que Stradlin deixou de utilizar drogas e houve a sua saída do Guns em 1991, a criatividade nas guitarras do GN’R nunca mais seria a mesma. Tanto é que nenhuma música inédita seria lançada pelo mesmo grupo após o lançamento dos discos "Use Your Illusion I" e "Use Your Illusion II". Nesse ponto, a falta de produção da banda quanto às guitarras nada tem a ver com Axl.

Depois viria a entrada do empresário Alan Niven, que tinha no currículo a intermediação do contrato dos Sex Pistols com a EMI. Em seguida, o GN’R lançaria o EP "Live Like a Suicide". Em tal época, Slash enfrentava o vício da heroína, extremamente mal visto por Axl. “Ela é o diabo. E tão atraente e sedutora que transforma uma pessoa num demônio desonesto e traiçoeiro. Ser um viciado é algo parecido com o que imaginamos que seja um vampiro”, descreve o guitarrista. O inconveniente das drogas e também do álcool, por parte de Slash, é sempre citado por Axl como um dos fatores de distanciamento dos dois.



Em determinado momento, Slash conta que ele, Duff e Izzy eram os “ratos de esgoto”, porque saíam para inúmeros clubes e bares ,ao contrário de Axl, que sempre foi mais “sofisticado” e não costumava “apagar” como os três durantes as baladas devido à mistura explosiva de álcool e drogas.

Também em várias partes do livro, Slash desmistifica algo aparente para muitas pessoas, que acreditam que após o tecladista Dizzy Reed ingressar na banda e Steven dar lugar à bateria de Matt Sorum, o Guns produziu músicas menos pesadas, registradas nos álbuns duplos "Use Your Illusion". Canções como “Dont Cry” e “November Rain”, entre outras, começaram a ser compostas e ensaiadas ainda na época do seminal "Appetite For Destruction". “You Could Be Mine”, “Dead Horse” e a cover para “Knockin’ On Heaven’s Door” são também do mesmo periodo, apenas para se ter ideia da complexidade da história e da sonoridade do GN’R.

Em seguida Slash explica a passagem trágica em que viu o melhor amigo morrer em seus braços devido a uma overdose. O guitarrista narra que mesmo sendo a pessoa que tentou salvar o camarada, acabou se tornando vilão na visão da família do jovem falecido.

O lançamento de "Appetite For Destruction", no dia 21 de julho de 1987, é um marco no livro. Slash descreve como a banda passou de uma incógnita adorada pelo underground de Los Angeles a um sucesso internacional. Da turnê com o The Cult à rápida relação com o Metallica, Slash conta que a “camaradagem” era grande quando o álbum começou a ser assimilado pela crítica e o público. Ele credita a falta do companheirismo ao término da formação clássica da banda.

Aí vieram os shows de abertura para o Aerosmith na Europa e finalmente o grupo se tornou o principal de uma turnê. Mesmo aparentando apego a Izzy, Slash não deixa de, em dado instante, criticar o colega de guitarra. “Izzy era o Grande Instigador. Era capaz de semear a discórdia sem se envolver”, dispara, citando desentendimentos com uma pessoa com a qual conviveram na época. Tudo isso no capítulo “Com o Pé na Estrada”.

Em outubro de 87 a banda encerrara a turnê de AFD e, na visão de SLASH, estava se solidificando cada vez mais. A razão era a sintonia com Izzy nas guitarras, a de Duff e Steven compondo a dupla do ritmo e Axl com sua grande energia. Na sequencia vieram as primeiras aparições na recém-criada MTV.

“Foi a nossa primeira exposição de verdade, penetrando lentamente na consciência coletiva”, classifica o guitarrista. A seguir a trajetória do Guns inclui shows de abertura nos Estados Unidos para o grupo Mötley Crue, que Slash considera como “a única banda de Los Angeles que surgiu do cenário do glam rock que era 100% autêntica”. Aliás, muita farra seria registrada na companhia de Nikki e Tommy.

E haveria ainda apresentações na companhia de ninguém menos que Alice Cooper. Entretanto, é nesta ocasião que Axl causaria um imenso constrangimento aos quatro colegas de banda. O vocalista optou por ir depois dos companheiros em um carro com a namorada, ignorando a opinião contrária do empresário e dos músicos da banda. Slash, Izzy, Duff e Steven esperaram até o último instante e tiveram de subir ao palco sem a presença de Axl. Além de terem de improvisar músicas cover enquanto o vocalista não aparecia, os componentes do GN’R chegaram ao ponto de perguntar se havia algum cantor disponível na plateia. “Acabamos insultando o público e atirando coisas nele. Foi ridículo”, avaliou o guitarrista, sem ‘meias palavras’. Depois que Axl não apareceu, os demais músicos do grupo deixaram o palco e voltaram para Hollywood. “Tão putos da vida que só falávamos em chutar Axl da banda ainda naquela noite e procurar outro vocalista”, conta Slash. Ele faz alusão, surpreendentemente, ao tanto de vezes que a possível expulsão do vocalista foi cogitada.

“O assunto de demitirmos Axl surgiu umas seis vezes, completamente a sério, durante o ciclo de vida da banda”, revelou Slash. Na sequencia ele relata que, no caso citado acima, o vocalista ainda agiu como se nada de errado tivesse provocado. “O espantoso em Axl é que ele não entendia, em situações como aquela, que havia feito algo errado, não se mancava”, criticou.

Slash ainda filosofa ao tentar descrever o controverso colega de banda. “Existem certos protocolos que Axl não segue. Uma vez que não habita o mesmo espaço mental que as outras pessoas, as normas aceitáveis não lhe ocorrem”, aponta o guitarrista. “Axl é super-inteligente e, ainda assim, vive num lugar onde a lógica que governa outras pessoas não se aplica. Não se dá conta do inconveniente que suas escolhas podem ser para os outros”, emenda Slash. Tal consideração pelo colega explicaria muito dali em diante...

O percurso do Guns N’ Roses traria a seguir shows de abertura para o Iron Maiden em 1988. O próprio Slash comentaria sobre o inusitado: “Não ficamos assim tão empolgados com a ideia, uma vez que não achávamos que formávamos a combinação perfeita”, admite. O guitarrista mostrou respeito aos ingleses, mas não os isentou de críticas. Ao dizer que o álbum "Seventh Son f a Seventh Son" fora um grande sucesso, Slash ridiculariza a apresentação de palco do Maiden. E ainda lembra de um ‘chilique’ de Axl que culminaria em uma “inquietante tensão” entre as bandas.

O guitarrista passa então a citar novos deslizes do vocalista, como ausências propositais em shows e reuniões da banda. Slash não perdoou o colega: “Falta de consideração de Axl”. Em seguida, após o cancelamento de parte da turnê em que estavam, os membros do GN’R partiriam para abrir apresentações do então renascido Aerosmith.

O poderio alcançado pelo Guns, mesmo com as intempéries de Axl, pode ser medido por algumas palavras de Slash. “Estava claro que, apesar dos sucessos do Aerosmith nas rádios, logo nós nos tornamos a atração principal. Aconteceu muito depressa, graças à exibição constante da MTV de “Sweet Child O’ Mine”, disse o guitarrista, sem falsa modéstia. Tanto é verdade que um jornalista da Rolling Stone havia sido designado para fazer uma reportagem de capa sobre o Aerosmith, mas depois de observar a reação do público e vendo o GN’R tocar ao vivo, optou por colocá-los no lugar do grupo de Tyler e Perry.



Foi nesta turnê de 1988 que o Guns assistiria a duas pessoas morrerem pisoteadas no festival Monsters Of Rock, em Castle Donnington (Inglaterra). “Axl parou o show algumas vezes num esforço para controlar a multidão, mas não havia como acalmá-la”, descreveu o guitarrista.

O ponto a que o GN’R chegara assustava Slash. “A verdade é que o que sempre quisemos fazer foi ficar acima das bandas idiotas de ‘hair metal’, que desfrutam sucesso não merecido por sua existência medíocre”, atacou. “Mas, antes que me desse conta, foi onde aterrissamos quase da noite para o dia”, ponderou. O sucesso alcançava países como Austrália, Nova Zelândia e até o Japão, onde Slash disse ter tido um “tremendo choque cultural”.

A fama beirava o auge, tanto que Slash contou ter realizado um sonho: comprou uma guitarra Les Paul de 1959 de Joe Perry, a mesma que o guitarrista do Aerosmith usava em um pôster que ele tinha na parede de seu quarto quando criança. Depois o músico ainda relataria que a Gibson faria uma guitarra em sua homenagem – a “Slash Signature” –, réplica de uma comprada por ele, modelo Standard, em 1988. “Levando em conta que fizeram o mesmo por Jimmy Page (do Led Zeppelin), sinto-me honrado”, considerou.

Referências Bibliográficas:

Slash - Slash com Anthony Bozza
Wiplash.net

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Pedras que rolam não criam limo - Rolling Stones, o espelho de sua época.


Os Rolling Stones são vistos, principalmente pelo público americano, como a maior banda de rock 'n' roll do mundo. Realmente, quando eles tocam puro rock 'n' roll, não há banda igual. Existem bandas mais pesadas, mais habilidosas, até mais criativas. Porém nenhuma toca o ponto nevrálgico do rock 'n' roll como os Rolling Stones.

Na década de sessenta, mais do que uma geração hippie e uma revolução musical, dois termos a tempos já tornados clichês para a indústria vender discos e quinquilharias, houve de fato uma revolução jovem, cortando uma linha bem definida entre a velha geração da Segunda Guerra e seus valores, e uma nova geração que buscava libertação dos traumatizados pós-guerras. Os pilares desse "movimento", mesmo que inconsciente para alguns dos seus "ativistas", foram Bob Dylan, os Beatles e os Rolling Stones. Por isso, falar de qualquer um desses três obriga também a falar em influencias em um contexto social. Muitos intelectuais agiriam para que a contracultura deslanchasse politicamente. Nomes como Abbie Hoffman, Jerry Rubin, Bobby Steale, e Angela Davis, são apenas alguns que fizeram as pessoas pararem para pensar diferente. Mas foram os Beatles, os Rolling Stones e Bob Dylan, através da música, que refletiram todas as tendências que repercutiriam entre a grande maioria dos jovens do primeiro mundo e em seguida, no resto do planeta.



Essa revolução se fez presente não só através da música, mas através da arte, dos cabelos, das roupas e principalmente da atitude. Os jovens intelectuais, inflamados pela música e motivados pela literatura de poetas Beatnicks, viam os recentes acontecimentos como um sinal positivo. Até então, depois da fase escolar, você não tinha muitas opções. Em geral, os homens trabalhavam, preferencialmente seguindo a profissão do pai, onde, como ele, se endividavam até a aposentadoria. O papel da mulher, na maioria dos casos, era restrito ao lar, e sua felicidade se resumia a uma cozinha nova e aparelhos domésticos, modernidades rapidamente assimilada pelas classes graças ao "boom" industrial. Com a necessidade de usar mão-de-obra feminina em função da ausência de homens no mercado, quase todos lutando na guerra, a mulher começa a tomar noção da extensão de suas aptidões. Quando a guerra acaba, nem todas voltam felizes para os fogões. A Segunda Guerra oferece uma contagem de corpos sem precedentes, gerando um desequilíbrio na quantidade de crianças em relação à de adultos masculinos. Tal desequilíbrio intitularia o período como "a era do baby boom". Olhando para trás, com a guerra acabando em uma nuvem de fumaça em formato de um cogumelo, é compreensível que a geração seguinte não tivesse uma maior preocupação com o futuro. A infância durante essa guerra transformara o conceito de segurança e futuro em concepções abstratas.

Revolução de Costumes

o atingir a adolescência, eles se embalavam ao som do rock n' roll com uma noção, em maior ou menor consciência, de que o mundo poderia acabar no apertar de um botão. Dito isso talvez fique mais claro porque tanta coisa aconteceu na década de sessenta, quando essas crianças entraram na maior idade. O movimento feminino, o movimento pacifista, a revolução sexual, um questionamento irrestrito sobre todos os padrões de comportamento e algumas repostas postas em pratica através de diferentes tipos de comunidades alternativas. Evidentemente criou-se uma maior distância entre as gerações, e atritos foram a tônica da década. Essa distância ou atrito ganhou o nome de "generation gap", ou seja, o vácuo entre a mentalidade da geração velha e a nova. Os jovens agora tinham uma música distintamente à parte da música dos adultos, surgia a arte pop, que através do humor e critica, agredia visões tradicionais, vestuários que, com o surgimento da mini-saia e do bikini, trouxeram à tona roupas que chocavam em concepção, cor e sex-appeal. Viver em Londres em '65, a "Swinging London", outro clichê hoje em dia, era ter a convicção absoluta de que a nova mentalidade certamente iria derrubar a velha e decadente civilização ocidental para que uma nova fosse criada no seu lugar. Porém, sem uma real filosofia mais bem definida e pouca noção de limite, moral ou substância, a subversão social em alguns anos seria totalmente tragada e absorvida pelo sistema, em parte através das boutiques e da violenta dependência química.

Afora a lucidez de uma pequena parcela de hippies, nome que deriva da gíria beatnick "hip" para determinar alguém consciente ou "por dentro das coisas", a grande nação hippie, na prática, era bastante alienada, apesar do seu discurso sobre "uma consciência universal". Como confirmaria John Lennon no final daquela década, com iluminada precisão, "O sonho acabou." Quanto ao quinhão dos ROLLING STONES, qual a sua parte e como é que tudo iniciou?



Referências Bibliográficas:

Vida- Keith Richards (livro caro pra caralho)
Wiplash.net